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ECONOMIA

Vitória de Lula provoca turbulência no mercado; o que esperar do dólar, da Selic e dos investimentos

Dólar fecha a R$ 5,40 após vitória de Lula, enquanto Bolsa cai 13,88%. Veja o que analistas projetam para o câmbio e os juros.

Rita kurles Publicado em 26/10/2026, às 23h46

Vitória de Lula provoca turbulência no mercado; o que esperar do dólar, da Selic e dos investimentos - Imagem: Reprodução - Edição: Tribuna Financeira

O mercado financeiro brasileiro enfrentou uma das sessões mais turbulentas dos últimos anos nesta segunda-feira (26), após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, despencou 13,88%, enquanto o dólar comercial encerrou o dia na faixa de R$ 5,40. Os juros futuros também dispararam, ampliando as preocupações sobre inflação, crédito e crescimento econômico.

A intensidade das perdas levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a queda do mercado atinge determinado limite. Foi a primeira vez desde março de 2020 que a Bolsa brasileira precisou recorrer à medida, utilizada durante o início da pandemia de Covid-19. O Ibovespa terminou o pregão aos 176.608,23 pontos, após atingir uma mínima de 169.516,43 pontos durante o dia.

O movimento refletiu principalmente a mudança nas expectativas dos investidores. Parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, e esperava uma política econômica com maior ênfase no controle das despesas públicas.

Com o resultado eleitoral, investidores começaram a rever suas posições, provocando vendas expressivas de ações brasileiras e aumentando a procura por proteção cambial.

Para os próximos dias, a avaliação de especialistas é de que a volatilidade pode continuar. A trajetória do dólar e dos juros dependerá, entre outros fatores, dos sinais que o governo eleito dará sobre as contas públicas, da composição da equipe econômica e da reação dos investidores estrangeiros.

Por que a vitória de Lula provocou uma reação tão forte na Bolsa?

A queda expressiva do mercado está relacionada à diferença entre o cenário esperado por parte dos investidores e o resultado confirmado nas urnas.

Antes do segundo turno, operadores haviam montado posições financeiras considerando a possibilidade de uma mudança de governo. Essa expectativa influenciava os preços das ações, as projeções para o câmbio e as estimativas sobre os juros brasileiros.

A reeleição de Lula alterou essas perspectivas e levou à revisão de investimentos que dependiam de uma expectativa de maior rigor fiscal.

Na prática, quando investidores passam a considerar mais arriscado manter recursos em determinado mercado, podem vender ações, reduzir a exposição à moeda local e buscar alternativas em outros países. Esse movimento pressiona os preços dos ativos brasileiros e aumenta a cotação do dólar em relação ao real.

A turbulência não significa, necessariamente, que todas as empresas brasileiras terão resultados piores ou que a economia entrará automaticamente em recessão. O que ocorreu foi uma mudança abrupta na avaliação dos riscos e das expectativas econômicas.

A dimensão do ajuste, porém, chamou a atenção. Segundo os dados do pregão, o Ibovespa perdeu 13,88% em um único dia, enquanto o dólar registrou uma das maiores altas diárias de sua história recente.

Dólar a R$ 5,40 pode ser o novo patamar?

O dólar comercial fechou a segunda-feira em aproximadamente R$ 5,40, depois de ter encerrado a sexta-feira (23) próximo de R$ 4,99. Durante o pregão, a moeda americana chegou a superar R$ 5,60, antes de reduzir parte da valorização.

A mudança aumenta a preocupação com os custos de produtos importados, insumos industriais e mercadorias cujos preços dependem das cotações internacionais.

Na avaliação de Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o mercado passou por uma correção de posições após a quebra das expectativas eleitorais.

Nesse cenário, o professor considera possível que o dólar permaneça estruturalmente acima do nível observado antes do segundo turno, enquanto os investidores aguardam sinais mais claros sobre a política econômica.

Isso não significa que a moeda necessariamente subirá todos os dias ou ficará permanentemente acima de R$ 5. O câmbio também reage ao cenário internacional, ao comportamento dos juros em outros países, ao fluxo comercial brasileiro e às decisões de investidores estrangeiros.

Uma entrada expressiva de recursos externos, por exemplo, pode ajudar a conter a valorização do dólar. Por outro lado, a continuidade da saída de capitais tende a aumentar a pressão sobre o real.

Luciano Sobral, da NEO Investimento, também aponta o comportamento dos investidores estrangeiros como um dos fatores que podem determinar a intensidade e a duração da turbulência.

Caso esses agentes considerem as ações brasileiras baratas após as quedas, parte deles poderá voltar às compras e compensar as vendas realizadas por investidores locais. Se prevalecer a cautela, a pressão sobre o câmbio e a Bolsa poderá persistir.

Juros futuros sobem e colocam a queda da Selic em dúvida

A disparada dos juros futuros foi outro reflexo importante da reação do mercado. Essas taxas representam as expectativas dos investidores para os juros em períodos futuros e influenciam as condições de financiamento da economia.

Quando aumenta a percepção de risco fiscal ou de inflação, os investidores podem exigir uma remuneração maior para manter títulos brasileiros. Como consequência, as taxas negociadas no mercado futuro sobem.

O problema é que juros elevados afetam diretamente empresas, consumidores e o próprio governo. O crédito pode ficar mais caro, os investimentos produtivos podem perder atratividade e o pagamento de despesas financeiras tende a pressionar empresas endividadas.

Antes das eleições, parte do mercado trabalhava com a possibilidade de novos cortes da taxa básica de juros, a Selic, nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) previstas para novembro e dezembro.

No cenário apresentado pelas informações do pregão, a Selic estava em 13,75% ao ano, depois de ter começado 2026 em 15%.

Com a mudança nas expectativas, a continuidade da redução dos juros passou a depender ainda mais da evolução do câmbio, das projeções de inflação e das decisões do Banco Central.

A desvalorização do real pode encarecer produtos importados, combustíveis, componentes eletrônicos e matérias-primas cotadas em moeda estrangeira. Se esse movimento for persistente, poderá dificultar a convergência da inflação para a meta.

Isso não significa que o Banco Central aumentará automaticamente a Selic por causa de um único pregão. A instituição considera um conjunto de indicadores, incluindo inflação corrente, expectativas de preços, atividade econômica e condições financeiras.

O risco é que um dólar persistentemente elevado e uma deterioração das expectativas inflacionárias reduzam o espaço para cortes dos juros nos próximos meses.

Contas públicas serão decisivas para recuperar a confiança

A reação do mercado também colocou as contas públicas no centro das atenções.

Durante a campanha eleitoral, Lula apresentou propostas que envolvem despesas públicas relevantes nos próximos anos. Para investidores e analistas, o desafio será entender como essas iniciativas serão financiadas e de que maneira o governo pretende estabilizar a trajetória da dívida pública.

O superávit primário, indicador que mede a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da dívida, é uma das referências utilizadas para avaliar a sustentabilidade fiscal.

Quando as despesas superam as receitas, há déficit primário. Se essa situação persiste sem uma perspectiva convincente de estabilização, investidores podem exigir juros maiores para financiar o governo.

Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos da Pilar Capital, avalia que a percepção de risco dependerá dos sinais sobre a condução fiscal, da formação da equipe econômica e da capacidade de articulação política do novo governo.

O mercado também deverá acompanhar as negociações com o Congresso Nacional e as perspectivas para a aprovação de medidas que possam influenciar receitas, despesas e reformas estruturais.

A composição ministerial terá papel importante nesse processo. Entre os nomes mencionados nas especulações sobre o comando do Ministério da Fazenda estão o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles.

Alckmin possui trajetória política conhecida e experiência no governo federal. Fonteles, por sua vez, tem formação em matemática e experiência anterior na Secretaria da Fazenda do Piauí.

Entretanto, a escolha do ministro, isoladamente, não será suficiente para determinar a reação dos mercados. Os investidores também deverão observar as medidas anunciadas, a autonomia da equipe econômica para executá-las e os resultados concretos da política fiscal.

Uma sinalização considerada consistente sobre o controle das despesas pode ajudar a reduzir os prêmios de risco. Já a ausência de medidas claras poderá prolongar a incerteza.

Quais empresas podem se recuperar primeiro?

Apesar do tombo generalizado, o impacto da desvalorização cambial não é igual para todas as empresas.

Companhias exportadoras que recebem parte relevante de suas receitas em dólares podem se beneficiar da conversão desses valores para reais. O efeito depende, entre outros fatores, da estrutura de custos, do endividamento e da parcela das vendas destinada ao mercado externo.

No pregão de segunda-feira, algumas exportadoras conseguiram avançar na contramão do mercado. A Suzano esteve entre os destaques positivos, beneficiada pela exposição ao mercado internacional e pela valorização do dólar.

Em contrapartida, empresas dependentes do consumo doméstico e de financiamentos tendem a sofrer mais quando os juros futuros sobem.

Varejistas, construtoras e companhias com elevado endividamento podem enfrentar custos financeiros maiores e uma possível redução da demanda. A queda dos preços de suas ações, contudo, não significa que todas terão o mesmo desempenho daqui para frente.

A recuperação dependerá dos resultados financeiros, das perspectivas de crescimento, da capacidade de geração de caixa e da evolução das condições econômicas.

Por isso, a forte desvalorização de um papel não representa, por si só, uma oportunidade de compra. Da mesma forma, a alta do dólar não garante ganhos para todas as exportadoras.

O que acompanhar nos próximos dias

O mercado deverá reagir às primeiras sinalizações do governo eleito, especialmente em relação à política fiscal e à escolha dos responsáveis pela condução econômica.

Também serão importantes os próximos indicadores de inflação, as expectativas para a Selic, a evolução do câmbio e o comportamento dos investidores estrangeiros.

Se houver sinais considerados positivos para as contas públicas e para a previsibilidade econômica, parte das perdas poderá ser recuperada. Caso contrário, a volatilidade poderá continuar, com impactos sobre o dólar, os juros e os preços das ações.

O principal ponto de atenção é que o pregão de segunda-feira refletiu uma mudança brusca nas expectativas, mas não determina sozinho o comportamento da economia brasileira nos próximos meses.

A direção dos mercados dependerá das decisões tomadas a partir de agora e de como elas serão interpretadas pelos investidores. Para consumidores e empresas, a evolução do câmbio e dos juros será especialmente importante porque pode influenciar preços, crédito, investimentos e atividade econômica.

Enquanto o cenário permanecer indefinido, previsões sobre o dólar e a Selic devem ser tratadas como estimativas condicionais, e não como certezas. A definição da equipe econômica e os primeiros sinais sobre as contas públicas estarão entre os principais elementos para avaliar se a turbulência dará lugar a uma recuperação ou a um período mais prolongado de instabilidade.

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